Ponto de Pauta

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HUMBERTO ECO

Umberto Eco redescobriu a função do jornalismo investigativo em seu novo livro

Postado as 14h54 | 21.02.2016 Número Zero serve a todos os públicos, entretanto, é um texto para jornalistas de todas as plataformas Texto publicado no Jornal do Commercio em 25 de agosto de 2015

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RECIFE- Umberto Eco, acredite, é jornalista de carteirinha e, como costuma dizer nas entrevistas, ainda guarda uma identidade profissional de quando escreveu para o jornal italiano La Repubblica. Ele faz parte daquele time de colaboradores que engrandece qualquer publicação. O time que faz o leitor meter a mão no bolso e comprar o jornal na banca só para ler seu novo artigo.

O também escritor, filósofo e professor italiano retoma o tema jornal no novo livro Número Zero, desta vez nos mostrando a história de um redator que é chamado para fazer um jornal que nunca será publicado porque está sendo anunciado ao mercado como uma publicação investigativa, cuja pauta o dono, um comendador proprietário de vários veículos de mídia, na verdade, deseja usá-lo para extorsão e para ampliar seu prestígio no meio.

Número Zero serve a todos os públicos, entretanto, é um texto para jornalistas de todas as plataformas, um termo que na profissão agora quer dizer a capacidade de publicar em jornais, revista, TV, rádio, internet e mídias socais, porque analisa pontos como as dificuldades dos jornais em competir em tempo real com as notícias online, sugerindo que a tendência seria eles ficarem parecidos com os semanários, entregando boas análises nas suas edições matinais.

Eco também analisa a questão dos usos da mídia como formadora de opinião, sempre da perspectiva do impresso e da necessidade de uma boa investigação sustentar uma firme reportagem. Não que os jornalistas precisem ser obcecados pelo domínio completo de todos os assuntos, mas de aprender a coletar dados para produzir bons textos.

Apenas um trecho de Número Zero é suficiente para pagar os R$ 35 cobrados pela Record pela tradução brasileira: a análise de como víamos (na década de 1990) os celulares sem ter a percepção do que eles se tornariam para nós no século 21.

Sempre é bom lembrar. No começo da introdução da telefonia no mercado global, a indústria de mídia impressa, que ainda não sabia o que fazer com seu conteúdo na internet, não percebeu o que ele representava para seu negócio. Não viu que o problema não era com a capacidade de as pessoas acessarem ou não o conteúdo impresso de seus PCs em casa ou no trabalho, mas o que a tecnologia poderia agregar, no futuro, ao aparelho de comunicação móvel. E sem saber como fazer com o PC, não teve tempo de ver o que representava o celular, que atende hoje pelo nome de smartphone.

Não foi o PC que se tornou anacrônico, foi o celular que se tornou indispensável. Até porque, na prática, virou um PC de mão. Esse é um debate que o setor ainda não resolveu, mas Umberto Eco aponta o equívoco.

Número Zero serve como “lição de casa” para estudantes de graduação e pós-graduação sobre o papel da imprensa, das novas mídias e da necessidade do jornalista procurar boas histórias para serem escritas por bons redatores e acessíveis em todas as plataformas.

Ah, se eles querem saber se no final o jornal sai ou não, não terão essa resposta aqui. Entretanto é importante pontuar: antes de um bom livro sobre jornal, Número Zero é um dessas obras que você abre e não consegue fechar até chegar na última página. Portanto, quando comprar reserve algumas horas para mergulhar nesse novo romance policial de Umberto Eco.

 


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